O MAJOR BRANCO ATÉ FICOU AMARELO...

A PROPÓSITO DE "GOLPES"...
Na gíria castrense há termos que flutuam ao sabor dos tempos e segundo os locais. No jargão da BA7 (S. Jacinto) o termo "golpe" significava autorização de permanência em casa para tratar de assuntos pessoais. Sem prejudicar o serviço normal, fez-se um entendimento de que todos os praças tinham direito a dois dias de "golpe" por mês, sempre autorizados pela entidade responsável, como é óbvio, e sem criar discriminações. Era um consenso generalizado.
Acontece que começaram a ouvir-se uns zunzuns de que havia quem violasse esse consenso de forma descarada e gerando natural mal estar. O certo é que os abusos foram criando uma onda e o assunto foi até abordado numa reunião de oficiais onde eu estive presente. Todos os oficiais presentes afirmaram que era um falso rumor pois ninguém ali presente passava licenças com prazo superior a um dia.
O major Branco foi o mais enfático, o mais convincente. Eu, pessoalmente sabia que ele era dos que mais abusava mas nada disse. Sabia que alguns iam trabalhar para casa dele e recebiam uma compensação simbólica. Contudo, havia situações chocantes e chegaram aos ouvidos do próprio comandante. Pediu-me para investigar no local onde eram guardadas essas licenças.
Na reunião seguinte, o major Branco foi interpelado de novo e até visado directamente pelo comandante. Negou perentoriamente, como era seu apanágio.
Eis senão quando o comandante saca de um envelope grande onde se podiam ver cerca de 60 papéis de licença, concedidas diariamente, a um soldado. Durante dois meses ele esteve em casa, contrariando o espírito daquela facilidade Tudo assinado pelo referido major. Ficou amarelo como a cera. e deu uma desculpa esfarrapada:«Ele tem a mãe doente e tive de fazer esse estratagema...»
Então o comandante sacou de outro envelope, onde estavam mais umas tantas dispensas concedidas a diversos soldados, utilizando a mesma metodologia: licença diária, sim, mas a multiplicar por muitos das... Enfim, o major não pode dar explicações esfarrapadas e calou definitivamente. não tugiu nem mugiu.
Enfim, «ou há moralidade ou comem todos», já dizia o sapateiro de Braga. O «sol quando nasce é para todos» diz também a sabedoria popular. «Todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais» dizia o autor daquele célebre livro «O Triunfo dos Porcos", George Orwell.
Enfim, um "golpe de mestre"...com sabor a "golpada"...
Enfim, a Verdade, nua e crua, é como o azeite, mais tarde ou mais cedo, vem à tona...

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