Injustiça chocante!


A INJUSTIÇA MAIS CHOCANTE A QUE ASSISTI...
Era Abril de 1973. Decorriam ou estariam prestes a decorrer os trabalhos do III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro. Havia agitação e turbulência nas ruas da cidade. Enfim, a polícia procurava evitar "ajuntamentos" e actuava com "virilidade"...
Na BA7 foi detido um turista francês que inopinadamente entrou na Base, vindo de norte para sul e depois percorreu toda a orla norte da Ria, de poente para nascente, procurando sair pela porta de armas! O comandante (2º) chamou o oficial de dia__ que por sinal era eu__ e pediu para interrogar o cidadão francês na sua presença pois ele argumentou que não dominava fluentemente a língua de Victor Hugo.
O aspecto da criatura era pouco recomendável, para os padrões da época. Era parecido com o cantor George Mustaki, o célebre cantor francês de origem grega, que viria a cantar o "Avril au Portugal" no ano seguinte. Bastante mais novo mas com a mesma barba cerrada, estilo "hippie". Na mochila trazia apenas alguns maços de tabaco (Gaulloise, se a memória me não falha) e umas latas de sardinha. O segundo comandante insistia para eu lhe perguntar se tinha máquina fotográfica. Ele disse, secamente, que não. Mas não ficou descansado. via nele o perfil do "terrorista" capaz de lançar bombas ou vandalizar os aviões T6 __ que os havia em abundância naquela base de treino de pilotos__ e não esteve com meias medidas. Ligou para a DGS (Direção Geral de Segurança - instituição criada em 1969 para substituir a Pide).
Eu, perplexo com aquela situação, ainda argumentei que ele não violara nenhum sinal (pois não havia qualquer sinalização pela orla marítima) que não cortara arame farpado, nem saltara qualquer vedação. Mas foi debalde. Ele olhava para as barbas do sujeito e via nele algo de sinistro, um Karl Marx francês a infernizar a vida da gente. Reconheço que após aquele acto de sabotagem em Tancos, em Março de 1971, onde o aluno piloto Ângelo de Sousa foi protagonista, havia um ambiente a roçar a paranóia. Toda a gente era suspeita. Então, de máquinas fotográficas todos fugiam, como o diabo da cruz...Enfim, o segundo comandante queria saber se ele tinha entrado legalmente em Portugal e a DGS era de facto uma entidade para isso vocacionada.
Mal terminei o serviço fui ao restaurante «Chez Edouard», que ficava próximo do parque de campismo da Orbitur__ em S. Jacinto__ a informar o dono do referido restaurante sobre a situação. De facto, disse-me que conhecia o seu compatriota, mas estava tranquilo pois o guarda fiscal era seu amigo e iria interceder por ele junto da DGS. Pediu-me um simples depoimento escrito, em que eu testemunhava a situação concreta em que ele fora encontrado, para, em caso de necessidade, eu ser interrogado e defender o seu amigo. Nunca fui chamado, presumo que tudo se resolveu. Contudo, ainda hoje pasmo com tal severidade, com este assomo de justicialismo furibundo, só compreensível à luz das circunstâncias políticas do momento.
Longe de imaginar que passado um ano, se daria o 25 de Abril. E, o referido segundo comandante, passou a ser tido como um "democrata" dos quatro costados, contribuindo até para a substituição do comandante. Dava-se ares de revolucionário e anti-fascista de longa data. Até se deu ao luxo de apresentar panfletos do PCP, antigos, e até se dizia simpatizante...
 Em baixo: s. Jacinto e a porta de armas da BA7
 
 

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