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Ângelo de Sousa, um pesadelo sem fim...
O
Pesadelo. Conheci Ângelo de Sousa - aluno piloto do curso posterior ao
meu- numa viagem de comboio. Simples, inteligente, fino trato, era
digno de atenção. Confidenciou-me a sua frustração por ser filho de pai
incógnito. Morava em Espinho e a mãe era empregada doméstica .Com uma
humildade sincera respirava patriotismo a rodos. Enfim, a primeira e
única impressão foi excelente. Estava em Luanda, há pouco tempo, e
veio uma notícia de que seria ele um dos implicados na sabotagem
ocorrido em Tancos (Março de 1971). Pensei que não tinha fundamento tal
notícia e defendi o amigo com galhardia. Que talvez estivesse doente e
demorasse no fim de semana, foi a explicação que dei para a sua ausência
da BA3 logo após a sabotagem. Mais tarde tudo se confirmou. Pertencia à
A.R.A. e fora um dos operacionais. Tive alguns problemas por causa
disso. Fui proibido de tirar fotos e começaram a fazer-me perguntas.
Tinha tido um processo judicial antes de ir para a guerra. Quiseram
saber do que se tratava. Lá expliquei que fora um acidente de viação;
uma motorizada, num dia chuvoso e ao contornar um buraco na estrada
quando eu passava de lado, bateu-me, e o dono queria que eu pagasse.
Ele foi para tribunal e eu entreguei o caso ao seguro. Um camarada meu,
que tinha feito vários pedidos para ficar em Luanda e que eu recusara-
eu era o primeiro classificado do grupo e não abdiquei desse direito-
começou a tecer insinuações sobre a minha família e o meu relacionamento
por causa de "ideias" (estilo "comunistas" e afins...) e criou-me um
ambiente terrível.Proibiram-me de tirar fotos na BA9, chateavam-me por
causa de ter a barba mal feita junto a uma cicatriz no queixo; uma vez
um capitão ficou muito ofendido por eu ter criticado o "feito" da
padeira de Aljubarrota ao matar, com crueldade, sete castelhanos, já
depois da batalha ter terminado e eles andarem foragidos...Enfim, Ângelo
de Sousa ficou-me atravessado na garganta...
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